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Dizem que a arte deve ser sentida, mas como? Com os 5 sentidos? Não exatamente. Aqui ela é sentida com o coração. A essência da arte está nas pessoas que a praticam. Essa é uma forma de viver bem, como diz o dramaturgo alemão Bertolt Brecht “todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte do viver”.

Aposto que quando você faz algo que ama nada te impede de se dedicar e dar o melhor de si, você tem o prazer de realizar. Este também é o caso de algumas pessoas com deficiência que, por meio do teatro, da dança e da música encontraram uma maneira para expressar as suas emoções e mostrar que não existem limitações. A arte é para todos que quiserem.

Além de destacar habilidades, a arte pode ter uma função extremamente importante para a inclusão, mostrando que não é preciso ver para dançar, ouvir para tocar algum instrumento e andar para estar em cima de um palco interpretando um personagem. As únicas coisas essenciais são: força de vontade e acessibilidade. É sempre necessário e válido incentivar iniciativas artísticas acessíveis para construir uma sociedade mais inclusiva, pois todos os indivíduos têm ao menos um talento que merece ser descoberto e aperfeiçoado.

Dentro das áreas artísticas você poderá saber um pouco sobre a dança, o teatro e a música desenvolvida por pessoas portadoras de deficiência. Algumas instituições trabalham com a integração, praticando o ensino dessas artes, como é o caso da Oficina dos Menestréis, criada pelo ator Deto Montenegro e Marco André de Magalhães; a Associação Fernanda Bianchinni, fundada pela bailarina Fernanda Bianchini; e Sons do silêncio, projeto iniciado pelo professor Carlos Alberto.

Os três institutos serão apresentados, respectivamente, nos capítulos Cena sobre rodas, Dançando com a diferença e A música dentro de si. O quarto capítulo Arte do (in)comum traz a opinião de um especialista que fala sobre arte e deficiência, além de três aplicativos que aliam tecnologia e inclusão.















CENA
SOBRE RODAS

As rodas giram pelo chão de madeira do palco. Os alunos cadeirantes e não cadeirantes da Oficina dos Menestréis reúnem-se ao centro. Deto Montenegro, 55, diretor artístico do projeto, entrega uma folha de papel a cada um. É o roteiro do que possivelmente será uma das próximas peças a serem encenadas.

Do centro do círculo, Deto, ator e irmão do cantor Oswaldo Montenegro, faz a narrativa principal e contextualiza a obra. Durante a leitura, ele incentiva e encoraja seus alunos a participarem, além de mostrar como são as canções e dar uma dinâmica melhor para a aula, fazendo comentários pertinentes. Enquanto isso, atores como Rodolfo Ferrim e Julie Nakayama, de 48 e 23 anos, respectivamente, vão lendo as falas dos personagens.

Esse é apenas um dos encontros que Deto tem com seus alunos aos domingos no teatro do Tênis Clube Paulista, local onde ocorrem as aulas da Oficina dos Menestréis. A oficina, aliás, surgiu de uma sociedade que Deto estabeleceu com o também ator Marco André Brandão de Magalhães em 1993, mas a sua história começou a ser traçada bem antes.

O começo de tudo

Em 1981, Oswaldo Montenegro, cantor e compositor conhecido por músicas como Metade e Bandolins, iniciou seus trabalhos com um novo método para dirigir e treinar bailarinos, cantores e atores. Por meio de exercícios baseados na atenção e no reflexo, a intenção era conseguir com que o elenco atingisse uma noção maior de conjunto, agilidade e atenção.

A partir desse método usado pelo irmão, Deto Montenegro desenvolveu e adaptou os exercícios para profissionais de todas as áreas, já que sempre acreditou que o desenvolvimento da percepção, reflexo e capacidade intuitiva podem ajudar e melhorar as condições de vida de qualquer pessoa. Em 1986, ele montou uma turma de teatro musical no Rio de Janeiro e, 5 anos mais tarde, junto com a Companhia Oswaldo Montenegro, criou outra em São Paulo. Foi a partir disso que nasceu a ideia da Oficina dos Menestréis, uma companhia de teatro musical com vocabulário próprio e linguagem original.

Na maioria das vezes, a direção das peças fica por conta do próprio Deto Montenegro, enquanto os roteiros são de Oswaldo Montenegro.



Mixturando teatro e inclusão

Segundo Deto, apesar da experiência como ator e professor de teatro, foi apenas em 2003 que ele começou a dar aula para pessoas com deficiência, por ter uma amiga cadeirante. Ele conta que nunca teve nenhuma preparação específica, pois a sua ideia não foi entrar no mundo dos cadeirantes, mas sim esperar deles uma orientação sobre como seria melhor realizar as atividades propostas na oficina.

Também foi através de amigos que os atores Julie Nakayama e Rodolfo Ferrim descobriram no teatro uma nova forma de se expressar. No Projeto Mix, encontraram uma oportunidade e também um desafio: crescerem pessoal e profissionalmente. Mas não é apenas em cima dos palcos que eles passam o tempo. Julie, que antes mesmo do teatro já estava envolvida com o universo artístico, mais especificamente com a dança, faz parte de uma companhia profissional. Já Rodolfo usa a sua voz de locutor para prestar serviços para a Chocolândia há 10 anos.

A arte é para todos


Todo ser humano tem arte em seu interior, basta querer desenvolver. Foi assim que Deto Montenegro explicou o método que ele desenvolve com a Oficina dos Menestréis, cujo objetivo é de que todos tenham acesso ao palco.

Mudando a vida de várias pessoas, Deto ensina a arte de atuar aos seus alunos cadeirantes, enquanto usa a oficina para dar espaço e voz para eles. Contudo, não é o único que utiliza a arte como forma de inclusão. É o que mostra Dançando com a diferença, que aborda a metodologia utilizada na Associação Fernanda Bianchinni.



Dançar não é só imitar passos. Você discorda? Pois então imagine uma pessoa com deficiência visual dançando. Ela não pode ver, mas consegue fazer os passos perfeitamente. Isso porque a dança não é só uma arte visual: ela tem ligação com diversas outras formas de sentir, formando a perfeita combinação entre concentração e música.

DANÇANDO COM
A DIFERENÇA

Ao som da voz do professor Rafael Kubano, 30, os alunos vão transformando comandos vocais em lindas coreografias de salsa. A aula é tranquila e seguida pela voz. Os alunos já conhecem os passos, sabem o que fazer e seguem os comandos com tranquilidade, pois sabem onde pisam.

Os pares já acertados no início da aula conversam entre si e mantêm toques doces em seus companheiros. Alberto Santangelo, 42, sempre teve contato com música. A dança o encontrou em determinado momento de sua vida e não lhe só trouxe ginga, também lhe rendeu amigos para a vida toda.

Quebrando tabus por onde passa, Alberto diz: "as pessoas ficam admiradas que nós, deficientes visuais, podemos fazer diversas atividades consideradas impossíveis. Acreditam que não podemos fazer quase nada, mas isso não é verdade". Fazer arte é possível para todos e também faz bem para a saúde mental e física, confirma Nara Raquel, 28, amiga e parceira de dança de Alberto. Ambos se encontram todo sábado na Associação Fernanda Bianchinni, localizada na Vila Mariana, em São Paulo.

A Associação, criada em 1995 pela professora Fernanda Bianchinni, possui metodologia considerada única no mundo para ensinar diversos estilos de dança para pessoas com deficiência visual. A escola atualmente conta com 300 alunos, possui projetos para pessoas com outras deficiências e é vista como a maior do Brasil.

A dança também abre espaço para sonhar

Para os artistas, ensaiar é só a ponta do iceberg. Nara treina 2 horas por dia e põe em prática tudo o aprendizado das aulas e completa: "estamos ensaiando para uma grande apresentação aqui em São Paulo. Tenho o sonho de participar de uma companhia de dança e percorrer o Brasil inteiro apresentando minha dança". Já o sonho de Alberto é outro: aprender o sapateado. Para ele, esse estilo de dança é muito bonito, seja pelo som ou pelos movimentos em si, coisas que o emociona.

Não existe uma pessoa incapaz de sentir, portanto todos podem fazer arte. A arte não possui restrições: sentir a melodia e deixar o seu corpo levar-se pelo som e pelas vibrações é universal, como mostra A música dentro de si.


A MÚSICA DENTRO DE SI

Para Carlos de Souza, a pergunta “o que impede um surdo de tocar um 
instrumento musical?” tem uma resposta muito simples e curta: nada.

Carlos é músico profissional e criador do Instituto inclusivo Sons do silêncio, uma iniciativa que começou em 2015 e almeja a criação da primeira banda filarmônica inclusiva do país. “Nosso projeto surgiu da necessidade de inserir pessoas com deficiência auditiva no universo musical, que é praticamente explorado apenas por ouvintes”, diz ele.

Situado em Pernambuco, o instituto é responsável por levar a música a cinquenta alunos e o professor garante: todos eles podem tocar. Mas no começo o projeto passou por uma grande dificuldade. Segundo Carlos, muitos alunos não eram alfabetizados e, portanto, não conseguiam aprender a leitura de partituras. “Eles tinham muita dificuldade na leitura. Infelizmente, ainda hoje, as famílias escondem o problema. Eles entram na escola muito tardiamente”. A solução encontrada, então, foi parar as aulas regulares para iniciar o processo de alfabetização. Primeiro ele ensina a ler português e se comunicar com o mundo, para só depois ensinar música. A instituição atende pessoas com outras deficiências, e não há limites para a idade, “afinal é inclusivo, então não somos nós que vamos excluir ninguém”, diz Carlos.

O vibrar das notas

Na metodologia utilizada, os alunos devem sentir a vibração do instrumento e tentar imitá-la. De acordo com Carlos, ele ensina simultaneamente o instrumento, a prática e a teoria: “Eu sopro no saxofone e o aluno coloca a mão no meu corpo para perceber a vibração. Outro saxofone fica na mão dele para tentar tirar o mesmo tom”.

Paulo Mariano, professor independente que ensina música para pessoas com deficiência em Belo Horizonte, enfatiza a importância do toque: “A audição se dá pela superfície corporal”. Assim, a principal técnica utilizada tem o objetivo de transformar o corpo todo em um grande órgão auditivo. Isso se dá através das frequências vibratórias, o que torna alguns instrumentos mais acessíveis que outros. “Em geral os instrumentos de percussão oferecem uma facilidade maior porque eles vibram mais”, esclarece Paulo. O professor também explica que a maior dificuldade é transmitir as emoções através dos sons, pois os alunos não têm o referencial para associar o som à emoção. Outra dificuldade muito grande é o fato das libras possuírem alguns termos musicais, mas não muitos.

Mesmo com dificuldades, os benefícios da música são diversos. Paulo defende que as aulas podem aprimorar as capacidades auditivas de quem ainda possui algum resíduo de escuta, e permitir que os surdos tenham acesso a arte dominada, em sua maioria, por ouvintes. Apesar de não acreditar que as aulas fomentem a inclusão, já que os deficientes auditivos procuram por escolas específicas por não serem incluídos nas práticas de ensino da maioria das instituições de música, para ele o aprendizado pode proporcionar um ganho social a partir do momento que gera confiança nos deficientes.


Durante as apresentações do grupo, Paulo conta que a plateia fica fascinada. “O público acha que existe uma mágica por parte do professor e que os alunos também são especiais por, mesmo sendo deficientes auditivos, conseguirem trabalhar com o som”.
Diferente do que a maioria acha, qualquer pessoa pode fazer arte. O impossível não existe quando se trata de vontade. Para adentrar mais nesse assunto e também sobre as possibilidades da arte, confira Arte do (in)comum, com uma visão diferente do tema.

ARTE
DO (IN)COMUM

Imagine algo impossível de ser definido em palavras e com o poder de te tornar mais vivo e representado. Assim é a arte, sempre presente na vida do mestre em Artes Cênicas Roman Lopes, 62, uma palavra tão pequena e cheia de definições.

Para o especialista em arte inclusiva e psicologia do desenvolvimento, a arte é além da representação de pensamentos e expressões em diferentes formas, é algo que “nos coloca em contato com um estado de existência menos individualizado, fazendo-nos lembrar de que somos mais do que nós mesmos”. Além disso, a arte também é importante no quesito de não ser excludente, dando espaço e visibilidade para todas camadas da população, inclusive deficientes físicos e mentais. “A arte para pessoas com deficiência é arte assim como para qualquer outra pessoa, mas possui um elemento a mais: o de ser aquele espaço de expressão livre de suas potencialidades e limitações”, diz Roman.

Diferente do pensamento de algumas pessoas, a deficiência não impede uma pessoa de ser feliz, de sentir e de se expressar. A verdadeira inclusão não se dá apenas com o fato de existirem espaços para deficientes terem visibilidade. É preciso ter a noção de que pessoas deficientes não se resumem a deficiência que têm. Roman não acredita em deficiência. Para ele, “a nossa sociedade é opressivamente padronizadora e trata pessoas diferentes de uma pretensa normalidade estabelecida como deficientes”.

Arte e tecnologia combinam?

Assim como vimos neste site, a arte é inclusiva por natureza e não envolve apenas representações cênicas, aeróbicas e musicais, como também possui seu espaço na tecnologia. Mas e a tecnologia, como está incluindo as pessoas? Os aplicativos Ludwig, Looktel e Guiaderodas ligam tecnologia e acessibilidade, alegrando e facilitando a vida de pessoas com diferentes deficiências.

guiaderodas

Infelizmente, nem todos locais públicos e privados possuem acessibilidade para cadeirantes. Para facilitar e promover uma maior locomoção de deficientes físicos, o aplicativo Guia de Rodas conta com colaborações de próprios usuários sobre as questões de acessibilidade em diferentes locais. O questionário dura em torno de 30 segundos e avisa aos usuários se um lugar é acessível ou não antes mesmo deles visitarem.

looktel-recognizer

A criativa ferramenta Looktel Recognizer auxilia pessoas com deficiência visual a se situarem e a se comunicarem com o ambiente onde estão. Como? O aplicativo usa a câmera do smartphone do usuário para captar imagens de objetos em volta e, em tempo real, identifica em forma de falas o que é cada objeto e onde está.

ludwig

Em desenvolvimento desde 2013 por estudantes de Campinas (SP), o aplicativo Ludwig promete revolucionar o modo de ouvir e sentir música. Pensada para deficientes auditivos poderem se conectar com a música, a ferramenta consiste em uma espécie de piano na tela do smartphone, conectado via wifi a uma pulseira que o usuário precisa utilizar. A cada toque na tela são emitidas vibrações diferentes no braço da pessoa, podendo sentir a música mesmo sem poder ouví-la.

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AMANDA KAORI

Repórter, fotógrafa e webdesigner.

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BRUNA LUCAS

Repórter e fotógrafa.

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GABRIELA SCHATZ

Repórter e fotógrafa.

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GIOVANNA REQUENA

Repórter e fotógrafa.